domingo, 25 de janeiro de 2015

Apenas mais uma composição poética que tenta retratar a força do amor.

Eva queria se livrar do Amor que a perseguia sem a deixar respirar. Ela viajou para quebrar o feitiço, mas não adiantou. Eva se enclausurou numa torre altíssima, mas, numa noite em que se debruçou na sacada, ele entrou. Eva tentou estabelecer regras, mas elas escorreram pelas rachaduras das paredes. Tentou cobri-las com cal, mas isso também não deu certo.

Em cada ponto onde Eva parava, o Amor reaparecia e lhe dizia com um sorriso malandro e confidencial: não irei me separar de você. Vamos juntos.

Desesperada e sem hesitar, ela começou a pensar em como se livrar dele, porque entre o Amor e Eva a luta era mortal e não importava como se vencia e, sim, somente a vitória.

A mulher preparou suas redes e anzóis e, colocando neles iscas de flores e mel dulcíssimo, atraiu o Amor com graciosas piscadas e dirigindo-lhe sorrisos com embriagante ternura entre graves e mimosas palavras, em voz velada pela emoção, e o Amor acudiu voando, alegre, gentil, feliz, confuso e confiante como uma criança, impetuoso e convencido como um adolescente, plácido e sereno como um homem vigoroso.

Então Eva o asfixiou com as próprias mãos.

O Amor não respirava nem se mexia; estava morto. Ao mesmo tempo que se certificada disso, a criminosa sentiu uma dor terrível, estranha, inexplicável, algo como uma onda de sangue que alcançava o seu cérebro e como um anel de ferro que oprimia gradualmente seu peito, asfixiando-a. Compreendeu o que estava acontecendo… O Amor que acreditava ter em seus braços estava lá dentro, em seu próprio coração, e Eva, ao assassiná-lo, tinha matado a si mesma.

Nesse conto de Emilia Pardo Bazán, notada escritora espanhola, podemos perceber o desespero de uma mulher cujo amor é mais forte que tudo e que transpõe a própria morte.

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